{"id":1516,"date":"2006-01-15T15:20:23","date_gmt":"2006-01-15T17:20:23","guid":{"rendered":"http:\/\/web1.hes.unicamp.br\/?p=1516"},"modified":"2016-09-19T16:06:59","modified_gmt":"2016-09-19T19:06:59","slug":"casa-de-apoio-do-hes-e-vira-trabalho-de-pos-graduacao-da-metrocamp","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.hes.unicamp.br\/index.php\/casa-de-apoio-do-hes-e-vira-trabalho-de-pos-graduacao-da-metrocamp\/","title":{"rendered":"Casa de Apoio do HES vira trabalho de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o da METROCAMP"},"content":{"rendered":"<div class=\"textos\" align=\"justify\">\n<p class=\"texto-central\" style=\"text-align: center;\" align=\"justify\"><strong><span style=\"color: #990000;\">O Doce Lar<\/span><\/strong><\/p>\n<p class=\"texto-central\" align=\"justify\"><strong>Entrada<\/strong><\/p>\n<p class=\"texto-central\" align=\"justify\">\u00c9 cedo, virando a direita ao col\u00e9gio do bairro Parque Jatob\u00e1 de Sumar\u00e9, a placa indica a casa, simples, com port\u00e3o de ferro, cal\u00e7ada de cimento. De dentro uma mo\u00e7a corre para vir atender, n\u00e3o \u00e9 preciso tocar a campainha, mesmo assim, toco e logo vem ela. \u201cEntra, entra&#8230; Dona Maria Irene est\u00e1 chegando\u201d. Ao entrar pela porta da cozinha, o aviso: Seja Bem Vindo. O cart\u00e3o de visita: o sorriso largo de Hilda. O coque nos cabelos, j\u00e1 aponta que ela gosta de trabalhar na cozinha, o caf\u00e9 est\u00e1 saindo, o fogo est\u00e1 aceso e no fog\u00e3o, uma panela de \u00e1gua. Fala em voz baixa, avisa que os h\u00f3spedes ainda est\u00e3o dormindo.<\/p>\n<p class=\"texto-central\" align=\"justify\">\u201cAqui t\u00eam hor\u00e1rio para acordar?\u201d<\/p>\n<p class=\"texto-central\" align=\"justify\">\u201cN\u00e3o muito. Os hor\u00e1rios s\u00e3o para almo\u00e7o e jantar\u201d.<br \/>\nNa parede da cozinha acima da mesa as 26 normas do lugar avisam sobre o rigor quanto a hor\u00e1rios, barulho, responsabilidade das chaves e perman\u00eancia. Enquanto a \u201cdona da casa\u201d n\u00e3o chega, Hilda come\u00e7a a puxar papo, quer me mostrar a casa, apresenta a \u00e1rvore de Natal, o pres\u00e9pio com o menino de Jesus e dois carneirinhos, que est\u00e1 montada em uma mesinha ao lado da cristaleira de madeira escura com copos azuis e x\u00edcaras brancas, na mesa de seis cadeiras, um vaso de flor e dois ursinhos de pel\u00facia. Na mesa de telefone, encostada na parede, o quadro de avisos, com alvar\u00e1s, uma mensagem de otimismo e uma placa: Obrigada pela visita. Uma estante, ao lado da porta de entrada na mesma sala, est\u00e1 coberta por uma cortina, ao levantar o pano, sacos de arroz, feij\u00e3o, \u00f3leo, farinha, a\u00e7\u00facar. Passamos pela cozinha e vamos at\u00e9 o banheiro, claro e amplo, azulejo branco, vaso e pia em tons de cinza, muito limpo. Passamos ao dormit\u00f3rio com duas camas e no arm\u00e1rio aberto roupas de cama e toalhas.<\/p>\n<p class=\"texto-central\" align=\"justify\">No segundo dormit\u00f3rio a porta est\u00e1 fechada, os h\u00f3spedes est\u00e3o dormindo. Ao caminhar para o quintal, o cheiro de coco de gato deixa Hilda constrangida, diz que s\u00e3o os bichos da vizinha, \u201cs\u00e3o seis gatos\u201d. L\u00e1 uma m\u00e1quina de lavar roupas e um varal modesto, com apenas um fio. No por\u00e3o, uma cadeira de rodas e caixas para as doa\u00e7\u00f5es. Hilda Sena Bezerra me apresenta a casa como seu fosse sua, e \u00e9. Ela \u00e9 quem cuida, escolhe o card\u00e1pio do dia.<\/p>\n<p class=\"texto-central\" align=\"justify\">\u201cTem sempre o arroz com feij\u00e3o, uma carninha e aquela mistura, hoje, vagem refogada\u201d. O cheiro come\u00e7a a envolver, e o ttsssssssssss da panela de press\u00e3o indica feij\u00e3o cozinhando, ela come\u00e7a a limpar a vagem, cortando em pedacinhos&#8230;<\/p>\n<p class=\"texto-central\" align=\"justify\"><strong>Coincid\u00eancia <\/strong><\/p>\n<p class=\"texto-central\" align=\"justify\">A \u201cdona da casa\u201d chega trazendo uma sacola com tr\u00eas vasilhas de guarda alimentos e a agenda nas m\u00e3os. Vai direto para a sala de jantar e come\u00e7a a abrir as correspond\u00eancias. Guarda pap\u00e9is e contas na agenda, enquanto faz perguntas sobre compras para Hilda. O telefone interrompe a conversa das duas por diversas vezes, em num dos telefonemas, um convite.<br \/>\n\u201cA senhora sabia que \u00e9 o nosso dia?\u201d<br \/>\n\u201cHoje? \u00c9 mesmo dia do volunt\u00e1rio\u201d.<br \/>\n\u201cO Ismael t\u00e1 dizendo\u201d.<br \/>\n\u201cFala que \u00e9 verdade\u201d.<br \/>\n\u201cEle quer colocar a senhora no ar\u201d<br \/>\n\u201cFala que depois ligo pra ele\u201d<\/p>\n<p class=\"texto-central\" align=\"justify\">No Dia Internacional do Voluntariado, 05 de dezembro, Maria Irene \u00e9 chamada para dar uma entrevista \u00e0 R\u00e1dio Nova Sumar\u00e9, falar o que pequenas a\u00e7\u00f5es podem provocar na vida de muitas pessoas. Para ela ser volunt\u00e1rio n\u00e3o \u00e9 direito, \u00e9 dever. Ao falar com seguran\u00e7a e autonomia come\u00e7a a revelar o ser humano que \u00e9. Comenta a coincid\u00eancia em poder estar contando toda a sua trajet\u00f3ria em um dia especial.<\/p>\n<p class=\"texto-central\" align=\"justify\"><strong>Inspira\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p class=\"texto-central\" align=\"justify\">Maria Irene Garcia De Nadai (foto) est\u00e1 com dois b\u00f3tons no lado esquerdo do peito, um do Hospital Estadual Sumar\u00e9 e outro acima, uma rosa do Lions, que acompanha o adorno. Detalhe que Maria Irene faz quest\u00e3o de tirar e mostrar. El\u00e9trica, ela toma o caf\u00e9 com pressa e engata na conversa, uma dic\u00e7\u00e3o aberta, com seq\u00fc\u00eancia r\u00e1pida. Os cabelos escuros e curtos, e os \u00f3culos, revelam uma pessoa que gosta das palavras. M\u00e3e de duas filhas e duas netas, aos 58 anos, ela nem parece que enfrentou vendavais na vida, num deles parece que ganhou mais for\u00e7a para sua nova miss\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"texto-central\" align=\"justify\">Diretora de escola aposentada, impress\u00e3o n\u00e3o falhou, h\u00e1 nove anos ela veio com o marido de Presidente Bernardes (interior de S\u00e3o Paulo) para a cidade Sumar\u00e9 na d\u00e9cada de 70. Toda a hist\u00f3ria come\u00e7ou quando perdeu a m\u00e3e com alzheimer em 2000. Um ano depois, o pai de 92 anos foi internado com isquemia cerebral no Hospital Estadual, onde a vida lhe prepara um desafio. Em um procedimento de limpeza de escaras, ela n\u00e3o concordou com o tratamento e n\u00e3o aguentando ver a dor do pai, fez a primeira ocorr\u00eancia, de pr\u00f3prio punho, ao servi\u00e7o de Assist\u00eancia Social. A cr\u00edtica trouxe a amizade com as assistentes s\u00f3cias, tanto que rendeu o trabalho em conjunto.<br \/>\nDias longos e noites frias, era inverno e Maria Irene passou noite no<\/p>\n<p class=\"texto-central\" align=\"justify\">Hospital Estadual, numa delas da janela do quarto observou um homem j\u00e1 de idade saindo do hospital e procurando um lugar para se abrigar, ele encontrou a marquise de uma loja de constru\u00e7\u00e3o. O notici\u00e1rio de televis\u00e3o avisava que seria a noite mais fria do ano e a imagem do homem n\u00e3o saiu da sua cabe\u00e7a enquanto o marido n\u00e3o trouxe um cobertor e uma garrafa de caf\u00e9. Foi pouco. Pediu para um m\u00e9dico amigo autorizar a perman\u00eancia do homem no hospital, que tinha vindo da cidade de Lorena (interior de S\u00e3o Paulo), com a filha doente e a m\u00e3e para o hospital. Por lei apenas um acompanhante poderia ficar. Enfim, a autoriza\u00e7\u00e3o acalentou o cora\u00e7\u00e3o de Maria Irene naquela noite, mas a id\u00e9ia do sofrimento n\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"texto-central\" align=\"justify\">O homem era apenas um dos in\u00fameros acompanhantes que vinham de longe e n\u00e3o tinham onde ficar, e pior, sem dinheiro para dormir e comer. Enquanto toma um gole de caf\u00e9 continua a contar a hist\u00f3ria de dor e atitude. O pai de Maria Irene acabou falecendo dias depois, uma semana depois, ela voltou ao hospital para a primeira reuni\u00e3o com dois m\u00e9dicos, tinha uma id\u00e9ia e sede de informa\u00e7\u00f5es, queria saber como fazer para ajudar os acompanhantes. Ao se refazer da perda, conseguia mais for\u00e7a e em dez dias estava formado um grupo de sete volunt\u00e1rios. Eles fundaram ent\u00e3o, a Casa de Apoio Viva Feliz, Institui\u00e7\u00e3o Antonio Garcia. Os acompanhantes deixaram o hospital e passaram a ser chamados de h\u00f3spedes pelo grupo.<\/p>\n<p class=\"texto-central\" align=\"justify\"><strong>Uma Maria<\/strong><\/p>\n<p class=\"texto-central\" align=\"justify\">Maria Irene \u00e9 uma das tantas Marias espalhadas no Brasil e se encaixa na homenagem de Milton Nascimento: Maria, Maria. \u201c&#8230;Ela \u00e9 mesmo uma for\u00e7a que nos alerta, uma mulher que merece viver e amar, como outra qualquer do planeta&#8230;.\u201d<\/p>\n<p class=\"texto-central\" align=\"justify\">A diretora aposentada conta que a f\u00e9 \u00e9 o seu ponto forte, sendo inabal\u00e1vel. Das tantas provas que presencia na Casa de Apoio, j\u00e1 viveu as suas tamb\u00e9m, por isso se intitula um testemunho de vida. V\u00edtima de um c\u00e2ncer no rim direito, recentemente encarou mais um teste, um cisto no p\u00e2ncreas. Lutadora, n\u00e3o se deixa esmorecer, continua trabalhando em prol do hospital e dos aflitos que acompanham os pacientes. A realidade dos pacientes e dos acompanhantes hoje \u00e9 outra, gra\u00e7as a uma id\u00e9ia e principalmente, um olhar diferenciado para a realidade vivida no hospital estadual.<\/p>\n<p class=\"texto-central\" align=\"justify\"><strong>O tempo passa<\/strong><\/p>\n<p class=\"texto-central\" align=\"justify\">Hoje s\u00e3o 100 volunt\u00e1rios entre dentistas, jardineiro, advogado, empres\u00e1rios, professores, ajudantes e assistentes sociais. O mais antigo, com mais de 80 anos \u00e9 o doutor Hor\u00e1rio Rezende Nascimento. Em quatro anos, mais de 200 pessoas foram cuidadas pela Hilda e a Regina. Caf\u00e9, almo\u00e7o, jantar, toalha cheirosa, roupa de cama passada, muita conversa fiada e de consolo.<\/p>\n<p class=\"texto-central\" align=\"justify\">Tudo viabilizado num esfor\u00e7o di\u00e1rio, que contou com doa\u00e7\u00f5es de empresas instaladas na cidade como a 3M, Honda e agora a prefeitura municipal. Com o grupo aumentando, as id\u00e9ias surgiram como o bazar mensal feito dentro do hospital, roupas, artesanato e brinquedos s\u00e3o vendidos, uma barraca \u00e9 montada no sagu\u00e3o do Hospital Estadual Sumar\u00e9. J\u00e1 a oficina de confec\u00e7\u00e3o de roupas surgiu com a necessidade de atender as m\u00e3ezinhas, como s\u00e3o chamadas as mulheres carentes que t\u00eam os filhos, mas precisam de roupas para o enxoval do beb\u00ea. As volunt\u00e1rias se re\u00fanem \u00e0s quartas-feiras e fazem do dia um acontecimento na casa de apoio, almo\u00e7am com os h\u00f3spedes, contam hist\u00f3rias, d\u00e3o conselhos e dividem o tempo, que para muitos \u00e9 de longa e indefinida espera.<\/p>\n<p class=\"texto-central\" align=\"justify\"><strong>Filha, m\u00e3e e av\u00f3<\/strong><\/p>\n<p class=\"texto-central\" align=\"justify\">Bom dia. Na mesa de quatro cadeiras na cozinha est\u00e1 uma garota de 16 anos, Luciana Moura, de cabelos amarrados, com cara de sono, \u00e9 m\u00e3e de primeira viagem e se prepara para ver o filho. Ela e a av\u00f3 do beb\u00ea prematuro esperam ele ganhar peso na UTI neonatal do hospital para que elas possam voltar para Tamba\u00fa (interior S\u00e3o Paulo). Enquanto passa a manteiga na bolacha de \u00e1gua e sal, a menina conta com alegria um quilo trezentos e noventa e oito gramas que est\u00e1 Ka\u00edque Mateus, com um m\u00eas e nove dias, mesmo tempo que ela e m\u00e3e Maria est\u00e3o na Casa de Apoio. \u201cParece a nossa casa, j\u00e1 acostumamos\u201d.<\/p>\n<p class=\"texto-central\" align=\"justify\">Enquanto escovam os dentes, no segundo quarto de h\u00f3spedes, est\u00e1 o livro \u201cO problema do ser, do destino e da dor\u201d, de Leon Denis, ao lado, a caixinha de isopor, que Luciana usa diariamente para estocar o leite materno. As orienta\u00e7\u00f5es e monitoramento s\u00e3o de Hilda.<\/p>\n<p class=\"texto-central\" align=\"justify\">A menina chama a m\u00e3e e de chinelos havaianas sobe a p\u00e9 at\u00e9 o hospital para encontrar o filho. Momento de dar mamar, ficar com ele no peito. \u00c9 o Projeto Canguru da ONU, implantado pelo HES, que preconiza a troca do calor humano entre m\u00e3e e filho, em que \u00e9 cientificamente comprovada a recupera\u00e7\u00e3o do beb\u00ea. Dona Maria pouco fala, parece anestesiada pelas \u00faltimas surpresas, gravidez da filha adolescente, perigo com beb\u00ea, nascimento prematuro e estar numa casa que at\u00e9 ent\u00e3o era estranha, mas que agora \u00e9 um lugar que conseguiu encontrar sossego, como diz. Ela gosta de ficar na casa, alguns dias nem chega a ir at\u00e9 o hospital, prefere descansar, se cansa ao ver gente sofrendo. Na casa d\u00e1 para dormir a noite toda, comer direito e ver televis\u00e3o, enquanto tem que esperar a recupera\u00e7\u00e3o do primeiro neto.<\/p>\n<p class=\"texto-central\" align=\"justify\"><strong>Criatura de luta<\/strong><\/p>\n<p class=\"texto-central\" align=\"justify\">Um rosto triste e um aspecto de canseira, o cotovelo apoiado na mesa e a m\u00e3o segurando a cabe\u00e7a, enquanto toma caf\u00e9, num copo de \u00e1gua, entrega as quatro toalhinhas de m\u00e3o para Maria Irene. Elas est\u00e3o em cima da mesa, Neide conta que ela mesma quem fez os detalhes, explica a t\u00e9cnica, ponto cruz. \u201cFa\u00e7o tamb\u00e9m vagonite\u201d. Nome um pouco desconhecido, \u00e9 um tra\u00e7ado sem ordem. Hilda interfere e conta que Maria Neide Santos \u00e9 a h\u00f3spede mais antiga, vem agora de 15 em 15 dias de Mar\u00edlia (interior de S\u00e3o Paulo).<\/p>\n<p class=\"texto-central\" align=\"justify\">Enquanto espera o \u00f4nibus e os outros pacientes da regi\u00e3o a serem atendidos, ela vem para casa, descansar e almo\u00e7ar. O transporte \u00e9 pago pela prefeitura da cidade, por isso n\u00e3o tem gasto. Aproveita e vem provar o almo\u00e7o da Hilda. Ela tem intimidade com a casa. \u201cUma vez s\u00f3 tinha eu e Deus de h\u00f3spede aqui\u201d. E Deus \u00e9 figura lembrada a todo instante, seu amigo, companheiro e ajudante. Para ela \u00e9 sagrado ler o evangelho de sexta-feira num centro esp\u00edrita da sua cidade.<\/p>\n<p class=\"texto-central\" align=\"justify\">E foi Deus quem esteve com ela durante todo o tratamento no Hospital de Cl\u00ednicas da Unicamp. A doen\u00e7a, um nome que ela sabe dizer, mas n\u00e3o explicar, piordema grangrenoso, les\u00e3o isolada, que se inicia com n\u00f3dulo ou bolha hemorr\u00e1gica, que evolui para \u00falcera necr\u00f3tica, em outras palavras, uma esp\u00e9cie de quel\u00f3ides dif\u00edceis de curar, caso de estudo. Com as saias que usa fica mais f\u00e1cil o m\u00e9dico examinar. At\u00e9 entender a doen\u00e7a foi dif\u00edcil, teste e mais testes, um ano e tr\u00eas meses no HC.<\/p>\n<p class=\"texto-central\" align=\"justify\">Tempo que lembra mais dos amigos, principalmente do grupo hospitalha\u00e7os (ONG que visita os pacientes internados), do que dos momentos de sofrimento. A amizade ficou com as enfermeiras e o m\u00e9dico que cuida da doen\u00e7a at\u00e9 hoje, Dr. Luis Ricardo. \u201cVou mandar cart\u00e3o de Natal para o pessoal de l\u00e1 ainda esta semana\u201d. Gra\u00e7as ao tempo que permaneceu no hospital, pode aprender a bordar. \u201cPara ocupar meu tempo aprendi as formas de bordar\u201d. Hoje j\u00e1 acha f\u00e1cil bordar, passa o tempo com os moldes do ponto cruz e vende seus trabalhos com toalhas de m\u00e3o por R$ 7,00, acha o trabalho pouco reconhecido, mas \u00e9 um dinheirinho para o final do m\u00eas. Dom\u00e9stica aposentada aos 35 anos por causa da doen\u00e7a, abre um discreto sorriso ao falar da sobrinha de um ano, que cuida no per\u00edodo da tarde. \u201cTenho loucura para ficar uns dias aqui, mas s\u00f3 de lembrar da minha sobrinha, desisto\u201d.<\/p>\n<p class=\"texto-central\" align=\"justify\">Ela lembra que relutou para vir conhecer a casa, as assistentes sociais insistiam. Ela pensava que o lugar seria um albergue. Deixa claro que n\u00e3o tem nada contra, mas prefere n\u00e3o descrever como imaginava o local. Hoje \u00e9 visita da casa, n\u00e3o mais h\u00f3spede. Vem agora para passear, mas acaba se apegando aos novos visitantes, principalmente com as m\u00e3es, que est\u00e3o com beb\u00eas internados. Se entristeceu quando soube da amputa\u00e7\u00e3o da perna de um beb\u00ea que estava no hospital, conheceu a m\u00e3e da crian\u00e7a na Casa de Apoio. \u201cA gente v\u00ea e ouve muita coisa triste e percebe que o nosso problema \u00e9 muito pequeno. Quando a gente fica dentro do hospital \u00e9 pior ainda, vi coisas que nem imaginava ver um dia\u201d, talvez por isso goste tanto de ficar na Casa de Apoio, para ela o lugar traz conforto e boa energia.<\/p>\n<p><strong>Efeitos<\/strong><\/p>\n<p class=\"texto-central\" align=\"justify\">As frases na parede em cima da TV, de 21 polegadas, antiga com bot\u00f5es, s\u00e3o digitadas e envoltas num pl\u00e1stico pregadas com fita adesiva. Neide \u00e9 uma das que se encantam pelas mensagens, copi\u00e1-las e leva para os amigos.<\/p>\n<p class=\"texto-central\" align=\"justify\">Enquanto fala das frases, acaba desconversando e conta que se tivesse dinheiro traria uma televis\u00e3o nova. Equipamento de muitas d\u00e9cadas, assim como a geladeira marrom, porte m\u00e9dio, de uma porta s\u00f3. O freezer \u00e9 muito pequeno e para Hilda fica dif\u00edcil congelar as carnes.<br \/>\nAs horas passam e cada um vai cuidar da vida, Maria Irene pega a bolsa, a agenda e carrega a imagem de Nossa Senhora das Gra\u00e7as, de quase um metro de altura. \u201c\u00c9 linda, foi a filha de um senhor que morreu e doou, vou lev\u00e1-la para restaurar\u201d.<\/p>\n<p class=\"texto-central\" align=\"justify\">Carregando a santa aproveita para ir pedindo no caminho uma luz, uma ajuda extra para saldar as contas, R$ 79,00 de luz, mais R$ 140,00 de telefone, fora manuten\u00e7\u00e3o da casa e as compras com as carnes, doa\u00e7\u00e3o rara. Gra\u00e7as a Deus, o aluguel \u00e9 pago por uma empres\u00e1ria que prefere ficar no anonimato. A Casa de Apoio passa pelo pior momento desde o in\u00edcio, as contas aumentaram, mas as doa\u00e7\u00f5es, infelizmente, n\u00e3o. Para Maria Irene, atender a demanda \u00e9 prioridade e o empenho com o trabalho se torna ainda maior, \u00e9 preciso mais g\u00e1s. \u201cGosto de ir \u00e0 luta\u201d.<br \/>\nS\u00e3o batalhas vencidas pela raz\u00e3o, a emo\u00e7\u00e3o ela deixa de lado. \u201cTrago um saquinho, deixo na porta, quando vou embora jogo os problemas e as tristezas l\u00e1, n\u00e3o levo para minha casa\u201d. E foram muitos os saquinhos nestes quatro anos, pessoas que querem morar na casa, se apegam ao lugar e pedem para ficar. Casos graves de doen\u00e7a, perdas e muita dor. Divide o seu tempo para ajudar dando o m\u00ednimo de conforto; um banho quente, uma comida fresquinha e uma cama para dormir. \u201cAmparar, n\u00e3o \u00e9 viver o problema\u201d.<\/p>\n<p class=\"texto-central\" align=\"justify\">A li\u00e7\u00e3o do voluntariado Maria Irene faz quest\u00e3o de ensinar as novas volunt\u00e1rias, as netas, volunt\u00e1rias mirim da casa. Uma tarefa contagiante, definida como uma pista de m\u00e3o dupla, quando a pessoa pensa que est\u00e1 doando, est\u00e1 recebendo mais e mais.<\/p>\n<p class=\"texto-central\" align=\"justify\"><strong>Despedida<\/strong><\/p>\n<p class=\"texto-central\" align=\"justify\">Hilda come\u00e7a a limpar o quintal, quem aparece \u00e9 a Nina, uma cachorrinha t\u00edmida, com um pouco de dificuldade no andar, por causa de um pino colocado na pata traseira. Foi trazida pela Maria Irene. Ela fica embaixo das m\u00e1quinas de costura e corre ao ver o esguicho na m\u00e3o de Hilda. Neide joga mais um pouco de conversa fora, com as m\u00e3os nos bolsos da jaqueta s\u00f3 observa a amiga trabalhar. S\u00e3o como duas vizinhas falando da vida&#8230; O quintal \u00e9 lavado, o port\u00e3o est\u00e1 aberto, a rua sem movimento, nenhum carro passa, a conversa \u00e9 sobre crian\u00e7as&#8230; \u00c9 hora de ir embora, o convite para o almo\u00e7o que sair\u00e1 logo \u00e9 adiado, quem sabe numa quarta-feira para um almo\u00e7o com volunt\u00e1rios e h\u00f3spedes.<\/p>\n<p class=\"texto-central\" align=\"center\">&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;-<\/p>\n<p class=\"texto-central\" align=\"left\"><strong>Mariana Aranha* <\/strong><em>Jornalista e assessora de imprensa das Faculdades Integradas Metropolitanas de Campinas (Metrocamp) e p\u00f3s-graduanda em Comunica\u00e7\u00e3o Criativa (especializa\u00e7\u00e3o em &#8220;Narrativas da Vida Real&#8221;), curso coordenado pelo TextoVivo em Campinas (SP), 2005.<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"textos\" align=\"justify\"><strong>Assessoria de Imprensa <a href=\"mailto:imprensa@hc.unicamp.br\">Caius Lucilius<\/a><br \/>\n<\/strong><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Doce Lar Entrada \u00c9 cedo, virando a direita ao col\u00e9gio do bairro Parque Jatob\u00e1 de Sumar\u00e9, a placa indica [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":2235,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[4],"tags":[],"class_list":["post-1516","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-noticias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.hes.unicamp.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1516","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.hes.unicamp.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.hes.unicamp.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.hes.unicamp.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.hes.unicamp.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1516"}],"version-history":[{"count":8,"href":"https:\/\/www.hes.unicamp.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1516\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2241,"href":"https:\/\/www.hes.unicamp.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1516\/revisions\/2241"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.hes.unicamp.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/2235"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.hes.unicamp.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1516"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.hes.unicamp.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1516"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.hes.unicamp.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1516"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}